16 de nov de 2013

"mas as coisas findas (muito mais que lindas), essas ficarão"


Um dia desses meu filho me perguntou se eu já tinha amado alguém além da mãe dele. Ao que eu respondi: Ana era minha melhor amiga, daquelas em que você confia; por quem você é apaixonado desde a quarta série, mas que não admite mesmo já no segundo ano do ensino médio. Ela tinha os dentes amarelados, tortinhos (os da frente), um belíssimo cartão de visitas, imagem que frequentemente estava presente nos meus pensamentos mais remotos naquelas noites de sexta-feira, em que ela estava dançando em alguma festa e eu deitado na minha cama olhando pro teto. Ah, a Ana! Minha Ana banana, sempre louca, exagerada, com aqueles cabelos castanhos voando conforme ela se mexia e aqueles vestidos floridos que esvoaçavam quase como se já fossem parte do vento. Aquela mecha que sempre ficava caída no seu rosto quando ela escrevia e que eu adorava colocar para trás da sua orelha. Sete anos se passaram desde que eu a conheci e lá estava eu, ainda caidinho por ela; uma paixãozinha que nunca passou, nem com três namoradas na bagagem; nem com os cinco namorados dela, todos (é claro) muito mais bonitos que eu. Talvez fosse esse o segredo: ela não podia estar comigo agora. Não agora, porque daria errado, sempre dá tudo errado quando você tem dezessete anos. Mas eu não me importaria de fazer tudo errado, errar mais de mil vezes, contanto que fosse com ela, com os dedos frios dela, com os lábios rosados dela que ela estava sempre mordendo inconscientemente. Porque era a Ana. E de alguma forma, ela estava comigo e eu estava com ela, desde sempre. Desde quando o picolé de pêssego dela caiu no chão e eu escorreguei nele. Porque então ela me pediu desculpas daquela forma toda atrapalhada e sem graça dela, toda vermelhinha, com aquelas bochechas gordas e me deu um beijo pra pedir desculpas. E parecia que até a dor das minhas costas pelo impacto tinha passado; aquele beijo curou tudo naquele momento. E desde então eu estava sempre lá com ela e ela sempre comigo. A gente ria tanto, meu Deus do céu! Que saudades de pegar a bicicleta e sair das Laranjeiras até Ipanema com ela, só pedalando e vendo a voz dela ecoando no vento. Aquelas risadas, o cheiro dela ficando preso no ar e entrando pela minha respiração; mas não ia pro meu pulmão, ia pro meu coração. E ficou lá. Até hoje. E não, Ana não é a mãe do meu filho. Ana foi minha melhor amiga, até o dia 21 de abril de 1987. Até ela ir sem medo pro infinito naquela bicicleta, como sempre. Só que dessa vez pra sempre, pra nunca mais voltar. De repente não tinha mais sorriso ou dentes amarelados. Nem mais uma mecha caída em seu rosto. Acabou o que podia ter sido, o que eu poderia ter feito diferente. E eu nunca amei alguém mais do que ela, nem acho que poderei. Porque a Ana é feita de sonhos, de possibilidades, das minhas memórias imaginárias. E como vencer isso? Mas que bom que eu guardei aquele cheiro no meu coração. Isso ficou.

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