31 de mar de 2015

um amor chamado cícero rosa lins


Há mais ou menos uns três anos atrás uma amiga minha me falou que eu tinha de ouvir um cara. Ela me mandou o clipe de "tempo de pipa" e a partir daí eu sinceramente posso dizer que minha vida nunca mais foi a mesma. Certamente se você tem aquela banda ou artista solo bem especial, sabe do que eu  falando. É quase que um sentimento transcendental, em alguns momentos parece que ela, ele, eles ou elas falam por você, de uma maneira que você nunca achou poderia colocar em palavras. Pois é, comigo foi (e continua sendo assim com o Cícero). O menino lançou em 2011 seu primeiro disco solo, Canções de Apartamento, após já ter sido vocalista da extinta banda Alice. Ao longo desses anos em que ele esteve presente na minha vida, o que sempre me fez amá-lo era justamente como que suas obras se adequavam à minha vida. Algumas músicas descreviam minhas situação naquele exato momento, outras coisas que já tinham acontecido e até mesmo situações que ainda estavam por vir. Em 2012, quando ouvi o Ciço (pros íntimos) pela primeira vez, Canções se adequava totalmente ao momento em que eu me encontrava. Num primeiro momento, a todas as coisas boas: vagalumes cegos, ensaio sobre ela etc. Passou um tempo e já em 2013 músicas "Açúcar ou adoçante?" e "Pelo interfone" conseguiam transcrever o que eu sentia profundamente, de uma tal maneira que sequer imaginei possível. Pois bem. Nesse momento, ele já tinha se transformado num cara super conhecido pelo Brasil todo (que bom!) e parecia que havia essa unanimidade de sentimento: o cara sabia o que tava falando. Canções é um álbum sentimental, fluente e cheio de coisa pra confessar. É apaixonar-se da maneira mais bonita possível e igualmente intensa; na mesma medida, sentir seu coração sangrando quando tudo acaba e cantar isso pra pessoa amada. Canções é aquela coletânea de pensamentos íntimos (tão sinceros) que a gente queria poder gritar em certos momentos. Ele faz isso pra gente. E por isso certamente foi um sucesso tão grande, não há quem não se identifique com essa vivência: o amar demais, sofrer demais, sentir demais - a um tal ponto que poderia transbordar. 

Aí chegou o fim de 2013 e com ele veio "Sábado", o segundo disco dele. Confesso que em um primeiro momento foi meio estranho. Sábados não é Canções nº 2 e honestamente fico muito feliz que não seja. Mas muita gente queria que fosse, queria a um tal ponto de não conseguir gostar de uma obra extremamente sensível. Sábados não veio transbordando, veio como um fim de semana raso, sem cor; aquelas reflexões dos momentos vazios e dolorosos da nossa vida, em que não sentimos mais uma dor aguda pelas perdas e derrocadas, mas ao mesmo tempo a falta do que sentir e dizer nos machuca. Esse machucado pra mim é lindo. E a maneira como esse álbum retrata isso me fascina. "Porta, retrato", minha favorita do álbum, é uma melodia muito conhecida por qualquer um pós-rompimento: o que dizer àquele alguém que até pouco tempo era tudo, mas agora você nem sabe mais o que é? Certamente é um amigo, certamente alguém que você não quer perder; mas esse meio termo entre o sofrimento de um amor perdido e findo e o início de algo (o que quer que seja) novo na vida é a coisa mais estranha. É um vazio, mas não uma dor. É uma falta de referência tamanha e isso nos faz perambular por nossa mente à procura de respostas, saídas - no mínimo uma saída para mais uma noite solitária e cinza. Ufa! Pois bem, Sábado não foi bem recebido, alguns dizem que ele não soube fazer o que devia, outros dizem que na verdade esperavam que o Cícero repetisse o feito anterior e se decepcionaram. Qualquer que seja a opção, eu sinceramente espero que essa insatisfação mude com a chegada do terceiro álbum (aka lindeza), "A Praia". Mais uma vez, esse carioca maravilhoso de Santa Cruz (d)escrevendo meu momento. A expectativa era grande, o nome do disco já era bonito. Só veio confirmar ainda mais sua beleza e genialidade. A vibe agora é outra. Não cabe mais ficar andando em círculos de incerteza e imprecisão, é tempo de recomeço. É um mergulho (numa água maravilhosa cristalina e cheia de vida). O disco saiu há quatro dias e já tenho umas 180 execuções no Last.fm. A minha música favorita, De passagem, tem um trecho que resume bem:

na onda leve da brisa do dia / na onda longa do trem / da onda leve da brisa do dia / eu encontrei o meu bem / não era fogo, nem alegoria / não era fuga também / não era medo da melancolia / era o dia de bem 

É um renascer. Os relacionamentos (e não apenas os românticos e sexuais) são grande parte do que define nossa trajetória e existência. Amar alguém com a sorte de um amor tranquilo (opa, referência detectada), sem o "afobamento" que muitas vezes mais prejudica do que ajuda, é uma experiência única; o amor sem ser fuga de problemas ou medo de ficar sozinho (e encarar seus demônios) é simplesmente isso: o dia de bem. A sorte (ainda que de maneira harmônica) nos presenteia com pessoas inesperadas, amores e felicidades não planejadas, que surgem em meio a tudo de tão comum e até cansativo das nossas rotinas. "A praia" é isso: um mergulho no início da manhã, começando o dia de uma maneira diferente de até então. Na faixa homônima ao cd ele diz que fazia tempo que não ia à praia e ela finalmente o levou à praia (e o fez redescobrir o(s) significado(s) do amor, certamente). Eu espero sinceramente que você possa sentir tudo isso ao ouvir esse álbum e viver essa fase também. E, por favor, ame "albatroz" (um amorzinho de música que também resume bem isso tudo): 

"entre condomínios e domicílios empoleirados entre utensílios; inutensílios empoeirados entre o desatino, o desaviso, o desamparado o homem antigo, o homem aflito e o homem amargo  
o dia alaranjou" 

Só sei que eu também quero amanhecer, alaranjar. 
10 de dez de 2013

(500) days of Summer — não, a Summer não é vadia

Muitas coisas me fizeram finalmente escrever esse post: a vontade desde sempre de falar sobre esse assunto, uma conversa que tive com uma amiga minha (finalmente achei alguém que pensa como eu sobre a Summer!) e um debate no fórum feminista, em que vi que muita gente também pensava como eu. Eu vi (500) dias com ela [(500) days of Summer, originalmente] há dois anos, no mínimo. A minha opinião sobre o filme (e sobre os personagens) foi mudando a cada vez que eu via e crescia também. Sempre gostei do filme, por diversos fatores, e mesmo tendo uns 14 anos eu já percebia algo: não, a Summer não é puta/vadia/sem coração. 

Pra quem não sabe, o filme conta a história de Summer (Zooey Deschanel) e do Tom (Joseph Gordon-Levitt) — esses da foto — e logo no início do filme já ficamos sabendo que eles não terminam juntos. Basicamente, o filme é um amontoado de todas as lembranças do Tom, sem ser em ordem cronológica (aspecto que me fez gostar muito do filme) e o espectador vai aos poucos entendendo como tudo aconteceu. Eles se conheceram quando a Summer começou a trabalhar na mesma empresa que o Tom (que apesar de ser um arquiteto, trabalhava com cartões) e de cara o Tom se apaixona por ela (isso pra não dizer que começa a ficar obcecado né). Eles se conhecem melhor, acabam se envolvendo, mas ela desde o começo deixa claro pra ele: “eu não quero nada sério”, “eu não acredito em amor”, etc. Bem, o que você faz quando alguém propõe algo assim? Se aceitar, é porque tá ciente das condições. Se não, beleza também, você queria algo sério e a pessoa não, não há o que fazer. Mas o Tom não. Ele é louco por ela e realmente acha que com o tempo ela também vai se apaixonar perdidamente por ele.

Só que... isso não acontece (por que será né?). Aí, surgem várias brigas, discussões, crises (por parte dele) e por fim, eles terminam mesmo. E sabe o que o brilhante Tom faz? Fica com raiva dela! Nossa, mas realmente! Que babaca essa garota, hein! Ela não quis nada sério comigo, deixou isso bem claro desde o início! Vê se pode! (oi?) No fim, a Summer acaba se casando com outro cara e realmente passa a acreditar em amor e tudo mais e (tcham, tcham, tcham)... Tom se irrita com isso! Mas que absurdo né, comigo ela não queria nem namorar e com ele ela quer casar? Tá certo isso, gente?

Hum... Tá, Tom. Olha, talvez fique meio difícil ter total noção disso quem não viu o filme, mas a Summer era uma garota fantástica! Em gostos, em personalidade, em caráter e em MATURIDADE. Coisa que o Tom nunca teve. Sabe por quê? Deixa eu te dizer uma coisinha: nenhuma garota é obrigada a se apaixonar por você. Por mais “legal”, “fofo” e “apaixonado” que você seja. E coloco esses termos entre aspas porque num filme pode parecer muito fofo um cara obcecado e que mete na cabeça que a menina é sua alma gêmea e fará de tudo pra ficar com ela, mas na vida real é beeeem diferente. Afinal, quem é que te dá o direito de decidir por ela se você é o amor da vida dela? Sabe o que isso me parece? Machismo. “Ain, feminista mal amada, eca”. Não, queridx. Eu acredito em amor, eu acredito em se apaixonar (por mais que não acredita em alma gêmea), de verdade. Não acredito é em garoto babaca que acha que tem direito de mandar nos sentimentos dos outros e se acha injustiçado porque alguém não quis passar o resto da vida ao lado dele.

Mas o foco do post não é Tom (ou quão babaca ele é). O foco é mostrar pros viewers que a Summer não é babaca, nem heartless! A Summer simplesmente não tinha certeza de que queria aquele cara, oras! E o que há de errado nisso? “Ah, mas o Tom é perfeito, poxa!”. Perfeito? Sério? Cê acha um cara obcecado e sem noção perfeito? Gente, pera lá né. O Tom é o tipo de cara possessivo, que vai se revelando aos poucos (e no fundo muito inseguro de si mesmo). Ele criticava mulheres pela forma como elas se vestiam (lembram da cena no bar?), bateu num cara após ele dar em cima da Summer e zoar o Tom (oh! Pobre Summer, precisa ser salva pelo Tom! Sure, senta lá) e de uma hora pra outra passou a odiar a Summer por ela terminar com ele. Nossa, perfeitinho hein! Quero um desses pra mim (só que não). Então, primeiro passo, lindos: parem de achar que o Tom é vítima nessa história (até porque, o propósito do filme é justamente mostrar o amadurecimento psicológico dele – ele melhora bastante, fica mais confiante em si mesmo e até volta a exercer sua profissão de verdade no final – e não ficar de babaquice porque a menina não quis ficar com ele). E aliás, sabe quem ajudou o Tom a vencer as inseguranças? A sem coração da Summer! Ohhhh! Como pode né? (risos)

Mas agora vamos ao segundo ponto: ainda que o Tom fosse um cara foda, bacana, legal e não possessivo e se a Summer não tivesse estipulado isso de que não queria nada sério, será que ela estaria tão errada assim em sair fora? Não. E sabe por quê? Nós somos seres humanos e mudamos de ideia, deal with it. Eu não sei em que vocês acreditam (amor verdadeiro, pra sempre ou que nada disso existe), mas acho que todos devemos acreditar que no mínimo respeito é necessário. Ser dispensado dói pra caramba, óbvio, você gosta da pessoa. E ninguém tá tentando te dizer que tá errado você sofrer, mas descontar isso na pessoa que terminou com você, só porque você acha que ela tá errada, é no mínimo burrice. Porque that’s life.

Mas agora o terceiro ponto da história (que é o mais feminista de todos, hehe): a mulher tem o direito de mudar de ideia, de sair fora. E mesmo casada, porque (again) pessoas mudam de ideia, você gostando disso ou não. E acho principalmente engraçado como que isso acontece com uma... mulher! Será que se fosse o contrário teria tanta gente contra a Summer, tanta gente a favor desse babaca e pouquíssima gente entendendo o propósito do filme? Acho que não, hein. A verdade é que chamar mulher de vadia, puta e tantos outros termos pejorativos já virou costume na nossa sociedade há muito tempo e é isso que me preocupa. Esse ódio todo pela personagem é porque ela simplesmente terminou um relacionamento com um cara. E isso não é normal. Isso é possessão, obsessão, machismo. Porque a mulher não é sua, ela é dela (e mesmo se fosse sua namorada, noiva ou esposa). Ela tem o direito de mudar de ideia, sem sofrer represália por isso. A Summer não é malvada, ela é madura e muita gente simplesmente não enxerga isso. E se fosse o contrário, se ela fosse a possessiva da história, aposto que teria muito homem dizendo que ela é puta, vadia e idiota também (coisas que não dizem do Tom).

E algo preocupante sobre o Tom é que as pessoas realmente acham esse tipinho de cara normal. Pois lhes digo: não é. O Tom é o famoso “nice guy”, ou seja, o cara que adora se afirmar como legal, respeitador, que se apaixona, que é romântico, mas é o mesmo cara que não sabe respeitar que a menina simplesmente não goste dele (ui, não gostou de mim, logo eu, O HOMEM MARAVILHOSO? Puta!), que a menina não queira mais nada com ele ou se ela for diferente do que ele julga legal é puta também. Conheço um monte assim e quero eles longe de mim (e de todas as outras mulheres).

Bem, gente, que tal saber olhar a Summer (e todas as Summers da vida real, que sofrem com essa mesma situação) de forma diferente? Garotas inteligentes, independentes, maduras e super bacanas! Garanto que elas têm uma visão bem diferente desse tipo de relacionamento.


E pra quem nunca viu o filme, vejam e tirem suas próprias conclusões! Acho a fotografia e a trilha sonora bem legais também (e se souber entender a proposta, também vai gostar). Abraços e beijos libertários!

P.S.: se você acha que eu exagerei, dá uma olhada no que o Joseph acha do seu próprio personagem: http://www.huffingtonpost.com/2012/08/17/joseph-gordon-levitt-500-days-of-summer-selfish_n_1795676.html
16 de nov de 2013

"mas as coisas findas (muito mais que lindas), essas ficarão"


Um dia desses meu filho me perguntou se eu já tinha amado alguém além da mãe dele. Ao que eu respondi: Ana era minha melhor amiga, daquelas em que você confia; por quem você é apaixonado desde a quarta série, mas que não admite mesmo já no segundo ano do ensino médio. Ela tinha os dentes amarelados, tortinhos (os da frente), um belíssimo cartão de visitas, imagem que frequentemente estava presente nos meus pensamentos mais remotos naquelas noites de sexta-feira, em que ela estava dançando em alguma festa e eu deitado na minha cama olhando pro teto. Ah, a Ana! Minha Ana banana, sempre louca, exagerada, com aqueles cabelos castanhos voando conforme ela se mexia e aqueles vestidos floridos que esvoaçavam quase como se já fossem parte do vento. Aquela mecha que sempre ficava caída no seu rosto quando ela escrevia e que eu adorava colocar para trás da sua orelha. Sete anos se passaram desde que eu a conheci e lá estava eu, ainda caidinho por ela; uma paixãozinha que nunca passou, nem com três namoradas na bagagem; nem com os cinco namorados dela, todos (é claro) muito mais bonitos que eu. Talvez fosse esse o segredo: ela não podia estar comigo agora. Não agora, porque daria errado, sempre dá tudo errado quando você tem dezessete anos. Mas eu não me importaria de fazer tudo errado, errar mais de mil vezes, contanto que fosse com ela, com os dedos frios dela, com os lábios rosados dela que ela estava sempre mordendo inconscientemente. Porque era a Ana. E de alguma forma, ela estava comigo e eu estava com ela, desde sempre. Desde quando o picolé de pêssego dela caiu no chão e eu escorreguei nele. Porque então ela me pediu desculpas daquela forma toda atrapalhada e sem graça dela, toda vermelhinha, com aquelas bochechas gordas e me deu um beijo pra pedir desculpas. E parecia que até a dor das minhas costas pelo impacto tinha passado; aquele beijo curou tudo naquele momento. E desde então eu estava sempre lá com ela e ela sempre comigo. A gente ria tanto, meu Deus do céu! Que saudades de pegar a bicicleta e sair das Laranjeiras até Ipanema com ela, só pedalando e vendo a voz dela ecoando no vento. Aquelas risadas, o cheiro dela ficando preso no ar e entrando pela minha respiração; mas não ia pro meu pulmão, ia pro meu coração. E ficou lá. Até hoje. E não, Ana não é a mãe do meu filho. Ana foi minha melhor amiga, até o dia 21 de abril de 1987. Até ela ir sem medo pro infinito naquela bicicleta, como sempre. Só que dessa vez pra sempre, pra nunca mais voltar. De repente não tinha mais sorriso ou dentes amarelados. Nem mais uma mecha caída em seu rosto. Acabou o que podia ter sido, o que eu poderia ter feito diferente. E eu nunca amei alguém mais do que ela, nem acho que poderei. Porque a Ana é feita de sonhos, de possibilidades, das minhas memórias imaginárias. E como vencer isso? Mas que bom que eu guardei aquele cheiro no meu coração. Isso ficou.
21 de set de 2013

Quando o machista não é um monstro


Certo dia desses eu estava na aula de filosofia (maravilhosa, aliás!) e devo confessar que o meu professor se tornou um grande modelo inspirador em diversos aspectos mesmo, o cara é incrível. Até que ele, não lembro o porquê, falou sobre o incidente da Ivete Sangalo que ocorreu mais ou menos há um mês atrás (em que o menino tentou tirar uma foto "por baixo" da roupa dela, já que estava perto do palco e então ela parou o show, exigiu o celular e apagou a foto). Bem, para minha surpresa, lá foi ele criticar a Ivete, chamando ela de "escrota e ridícula" por essa atitude. Para mim, não há dúvidas de que o escroto e ridículo da situação é o garoto, afinal, estando ela sem calcinha ou não, da forma que fosse, ele não tinha o mínimo direito de enfiar uma câmera entre as pernas dela, pois mesmo sendo artista ou "figura pública" como gostam de falar, ainda é uma pessoa, como eu e você e eu não gostaria de que fizessem isso comigo em nenhuma situação. Pois bem, acho que nisso todos concordam. A questão é: como lidar com o machismo que parte justamente de quem você admira ou de alguém de quem você gosta muito? É uma luta diária, my dears. Porque simplesmente toda nossa sociedade está infestada de machismo, everywhere and everyhow: seus pais, seus amigos, seu/sua namorado(a), os livros (até aquele autor que você acha simplesmente brilhante). Enfim, é fácil odiar aquele cara babaca que adora se gabar dizendo que pegou não sei quantas na noite anterior. É fácil detestar esse machismo que parte de gente indiferente à gente ou de que a gente não gosta. Mas eu posso não gostar do meu pai, do meu irmão, do meu melhor amigo? Poder pode, mas... vale à pena? Eu andei refletindo muito sobre isso ultimamente e inegavelmente, é dificílimo, mas às vezes precisamos de uma visão socióloga mesmo nesses casos: eu vivo numa sociedade machista, eu também tenho os meus graus de machismo (é importante reconhecer esse tipo de coisa, porque é a pura realidade), muitos que ainda não consigo superar, e o mesmo se aplica a outras pessoas. Shakespeare não deixou de ser um gênio literário porque foi um machista de carteirinha. Eu continuo achando Nietzsche muito foda, mesmo sendo misógino demais. Bem, não é fácil ser feminista, todas(os) sabemos. Eu já me afastei sim de pessoas porque não consegui mais tolerar certos comportamentos, comentários, pensamentos e posicionamentos. Mas tem gente que ainda importa pra mim e pra caramba e não vou deixar o patriarcado tirá-los de mim (e isso inclui meus livros!).
16 de nov de 2012

Moda e nudismo


Apesar de não ser um assunto muito comentado hoje em dia, o nudismo ainda é muito condenado, eu diria que por, na verdade, sequer ser bem entendido pela maioria. Bom, antes de tudo, é bom a gente entender que nudismo não é promiscuidade, sexualização, etc. Acho uma ideia bem interessante, mas não seria uma adepta do movimento por alguns motivos que citarei ao longo do texto. 

Ainda não se sabe muito bem porque os seres humanos começaram a usar roupas, mas a causa foi variada nas regiões. Foi para a proteção contra o clima, determinar um status social, separar classes e também para proteger as pessoas do "ataques sexuais" (pois é, se hoje em dia ainda há um desrespeito enorme, imagine naquela época?). Enfim, isso fez com que começássemos a usar roupas. Se olharmos na história, veremos que a roupa foi e continua sendo usada como forma de opressão. Como assim? Eu explico. Primeiro, lá atrás, as roupas determinavam status sociais e geravam exclusão das classes menos abastadas. Hoje em dia essa opressão ocorre de duas formas: a ditadura da moda, que quer impôr o que é bonito, isso não somente em relação à roupa, mas maquiagem também, por exemplo; e os tipos de roupas que são usados. Por exemplo, tenho certeza de que você já viu alguém na rua falando mal de um menino porque ele estava com uma roupa preta, era punk e tal. Ou então, também tem aquela pessoa que xinga a menina que usa shorts curto. O uso da roupa não é o problema, mas sim as pessoas se acharem no direito de opinar de forma negativa e até ofensiva sobre como as pessoas se vestem. Esses dois exemplos são alguns dos mais comuns, mas a gente sabe que existem mil outros casos. 

Ok, esse é um problema, mas será que a solução é abolir o uso das roupas? Na minha visão, não. Como eu disse, não são as roupas, mas o julgamento das pessoas, o preconceito que leva muitas vezes até a violência física e psicológica. Mas voltando... por que não seria a solução abolir as roupas? Acho que isso é uma questão opcional. Se você se sente bem nu e toda a sociedade não se sentir desrespeitada com isso, ok. Hoje em dia as pessoas ainda se sentem mal em relação a isso. Resquícios do conservadorismo? Talvez. Eu não faria parte de uma sociedade nudista por duas razões: não gostaria de que todos vissem o meu corpo, acho que isso é uma questão bem íntima e acho lindo e poético só o seu parceiro(a) conhecê-lo; acho que as roupas são formas de libertação também, elas podem refletir nossa posição dentro da sociedade e como vemos a vida. 

Soluções para esses problemas? Simples. Nudistas e não-nudistas aprenderem a conviver em paz, sem discriminação para com nudistas, e os nudistas também não acharem que todos os não-nudistas são ultra conservadores. Respeito, minha gente! Sim! Não é porque  a menina tá com saia curta que é menos gente ou mais promíscua! Sem esteriótipos, por favor! Quem sabe assim consigamos viver numa sociedade mais plural e justa.
7 de out de 2012

a poesia de cícero


Antes de tudo, queria me desculpar pelo abandono do blog, mas a volta das aulas após a greve deixou tudo mundo das federais assim. Tenho algo que tem me acalmado bastante nesse período pré-provas: Cícero e suas canções de apartamento! O carioca tem 25 anos e encantou muita gente com  suas músicas que variam do indie à MPB. Um som bem leve e doce. Quem gosta de Clarice Falcão e A banda mais bonita da cidade  vai amá-lo! Como todo artista independente, não é muito ouvido pela maioria das pessoas, mas quem gosta da simplicidade e ainda consegue ver um pontinho de cor e luz numa cidade grande se dá bem com o som do Cícero. Pois então: indico Cícero aos sonhadores e puros de coração e com almas coloridas nesse mundo tão cinza! Diz a lenda que trocou suas certezas por alguns sonhos mágicos.
31 de jul de 2012

Pra não dizer que não falei d'A flor

                                                                                           
Conheci-a em 1964. Era a minha mais bela flor. Ela era radiante, mais que a luz do sol. Tinha cabelos soltos, tocava violão como ninguém. Aspirava liberdade. Era ativista contra a ditadura militar. Aquela menina parecia reunir todos os conceitos mais belos dentro de si. Mas com certeza o melhor dela era saber admitir seus limites, sua dor, seus defeitos. Ela dizia isso, sem problema. Ela sabia sofrer direito. Sofria sem escândalo. Sofria reconstruindo o tempo perdido, reconstruindo si mesma. Ela entendia a importância da dor e sua energia renovadora. Muitos daqueles positivistas viriam então dizer-me que não, não devemos sentir a dor, blá, blá, blá. Pois lhes digo então que sentir dor faz parte do ciclo natural da vida. Faz balançar tudo aqui dentro, o coração fica apertado, as perguntas de uma vida mudam completamente. E é por isso que ninguém gosta de sentir dor. A dor é um sinal, não a causa. A dor só mostra que há algo errado. A dor faz com que a gente se sinta obrigado a olhar pra si, olhar um espelho que reflete nossa personalidade, sem piedade alguma. E isso é de cortar o coração de qualquer um. Então, é mais fácil evitar. Fingir que está tudo bem, que já passou. Mas na verdade, nos corroemos por dentro, cada pedacinho da alma sofre. Ela me ensinou tudo isso. Ensinou-me a respeitar a dor, mas não deixá-la vencer. Ela me ensinou que tudo é relativo, a gente escolhe como vê cada situação. A pior das desgraças para ela era motivo de reflexão, recomeçar. E isso me dava uma raiva! Eu queria gritar, odiar a Deus! Mas ela não me deixava. Não por me obrigar, por me fazer enxergar a verdade e assim é pior ainda, saber que o que pensamos está errado. Ela me fazia tão bem, sabe… Ela me fez perceber as diferentes matizes do brilho do sol, fez-me saber viver poesia, liberdade, o amor. Hoje… Bom, hoje ela ainda me faz ver tudo dessa forma e ainda mais bonito. Ela se foi em 1970. Foi tudo muito rápido, muito intenso, muito forte. O nosso romance, nosso aprendizado, a vida dela. Ela tinha vinte e sete anos quando morreu. Esse foi o pior momento da minha vida. Eu a amava de uma forma que nenhuma daqueles militares jamais entenderia. Eu daria minha vida por ela. Eu queria viver com ela, lutar com ela, crescer com ela, ter filhos com ela. Ensiná-los a liberdade, a beleza das coisas. Hoje sou casado, tenho filhos, sou feliz. Eu fiz tudo o que ela queria eu fizesse. Eu lutei (e ainda luto) pela liberdade, fui muito feliz, conheci a mãe dos meus filhos. Mas nunca a esqueci e jamais esquecerei. Sei que ela também não me esqueceu onde está e um dia a gente vai se encontrar. Caminhando e cantando e seguindo a canção…